sábado, 18 de maio de 2013

Eu, Você e Todos Nós (2005)


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Me, Myself and Everyone We Know
EUA / UK, 2005
Direção: Miranda July

A solidão no mundo moderno é um tema bastante recorrente no cinema. As relações humanas na era da internet, a busca por um amor que dure para sempre, a necessidade de se conectar com as pessoas, todos esses temas já foram exaustivamente retratados no cinema. Ainda assim, Miranda July, uma artista multimídia que já teve trabalhos expostos no Moma e no Guggenheim de Nova York, conseguiu fazer um filme tocante e original em sua estreia na direção. 

Melancólico do início ao fim, sem cair em nenhum momento na pieguice, “Eu, Você e Todos Nós” consegue cativar o espectador por expor de forma doce e um tanto onírica a busca universal do ser humano pelo amor, pela aceitação e pelo sonho, que muitas vezes parece impossível, de encontrar conforto sentimental no mundo em que hoje vivemos.

É duro, por exemplo, ver o espelho que vem com botão “eu te amo” acoplado, e imaginar a infinidade de pessoas que comprariam esse produto se ele realmente existisse, como uma espécie de vibrador sentimental (quer dizer, ao invés de preencher a necessidade de sexo que os vibradores propiciam, ele preencheria a necessidade de amor). Impossível um objeto mais representativo da falta de amor que predomina nos dias de hoje.

Outro exemplo dessa necessidade de “amor self service” é a camiseta de auto-afirmação que veste a ex-mulher do vendedor de sapatos. Já que ninguém me dá valor, eu vou vestir uma camiseta que só eu vou conseguir ler no espelho e que me diz o quanto eu sou precioso, especial, maravilhoso, único, incrível etc.

É mais triste ainda perceber a solidão das crianças e ver como desde pequenos nós somos bombardeados por uma ideal de vida que não escolhemos. É horripilante assistir a menininha que coleciona eletrodomésticos e objetos domésticos em sua “arca da felicidade”, alimentando um sonho imposto pela sociedade de que ela só vai ser feliz quando crescer, casar, tiver filhos e seguir a cartilha do que o mundo lhe ensina que é felicidade.

Por outro lado, muitas vezes temos a ilusão inocente de que somos diferentes da maioria, de que todos ao nosso redor estão felizes, vivendo uma vida perfeita, e que só a gente se sente só e incompleto. Isso fica evidente na cena em que a protagonista envia o vídeo para a curadora do museu. Ela diz algo como “você deve estar assistindo a esse vídeo na sua casa, rodeada por seu marido, seus filhos e seu cachorro, que também deve ter uma família, e provavelmente nem vai chegar até este ponto da fita”. E, no entanto, a curadora é tão ou mais solitária do que a artista, e acaba aceitando expor a obra justamente por esta identificação. 

Apesar dessas e outras situações que evidenciam o nosso vazio interior, o filme mostra (e o próprio título já prenuncia) que, por mais que acabemos nos isolando uns dos outros, sempre vamos buscar nos conectar de alguma maneira, seja por meio da internet, seja através de situações emergenciais que nos obriguem a nos relacionar com nossos vizinhos, seja através da arte. Ademais, ao contrário do que a vendedora da loja de departamentos diz para a menina, nem tudo vai ser computadorizado daqui a 20 anos e, mesmo que seja, sempre vai ser necessário haver ao menos um ser humano por detrás de cada computador.

OBS 1: Pena que a diretora/produtora/atriz/artista multimídia Miranda July pesou a mão em seu segundo longa "O Futuro" (2011), um filme tão autoral, tão experimental, que ao invés de conectar-se com o expectador, o distancia, com cenas demasiadamente arrastadas e situações, como a do gato "Patinha", que provocam mais risos do que identificação. 

 OBS 2: É genial o ensaio que a artista fez para a revista Vice (aqui), interpretando figurantes que atuaram em filmes clássicas, e mais incrível ainda é o texto que introduz o ensaio, que traduz a sensação de estar à parte da "ação" e a necessidade de ser reconhecido.

"Dear Julie, 
Do you ever feel like an extra in your own life? It seems like I'm forever stuck in the background, watching other people say and do all the things I feel inside. One day I'm gonna surprise everyone with my talents. They will be laughing and crying and texting me so often that I will be annoyed.  
Until then, 
Sandy"


2 comentários:

Mônica disse...

Adorei ler esta crítica tão sensível nesta noite chuvosa,de puro vazio. Amor & Gratidão

Marcelo Sartori disse...

Obrigado Monica! Adoro qndo vc passa por aqui! :) Pena q vc sumiu do Face! Bjs!